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David Hume: resenha seção V (solução cética), da Investigações sobre o entendimento humano
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INDICAÇÃO BIBLIOGRÁFICA
HUME, David. Investigação sobre o entendimento humano. In: Berkeley e Hume. São Paulo: Abril Cultural, 1973. (Os Pensadores) pp. 144-151.
1 INTRODUÇÃO
HUME, David. Investigação sobre o entendimento humano. In: Berkeley e Hume. São Paulo: Abril Cultural, 1973. (Os Pensadores) pp. 144-151.
1 INTRODUÇÃO
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Ao longo da seção IV da Investigação Sobre o Entendimento Humano, de titulo “Dúvidas Céticas sobre as Operações do Entendimento”, o filósofo David Hume ataca o problema das inferências causais no processo de geração do conhecimento humano. De modo geral, o cenário problemático de Hume é a (in)validade do conhecimento, gerado pela empiria, a cerca dos eventos naturais entre os objetos; mais especificamente a relação de causa e efeito entre eles. Vejamos um panorama das dúvidas levantadas pelo filósofo na seção em questão:
Todos os raciocínios sobre questões de fato parecem fundar-se na relação de causa e efeito. [...] Se nos quisermos persuadir, contudo, sobre a natureza dessa evidência que nos dá garantia em questões de fato, devemos indagar como chegamos ao conhecimento dessa relação da causa e do efeito. [...] Cada solução faz surgir uma nova questão, tão difícil quanto a anterior, e nos conduz a novas pesquisas. Quando se nos pergunta: Qual a natureza de todos os nossos raciocínios sobre questões de fato?, a resposta apropriada parece ser que eles se baseiam na relação de causa e efeito. Mas, se tornarem a perguntar: Qual é o fundamento de todos os nossos raciocínios e conclusões a respeito dessa relação?, podemos responder com uma simples palavra: a Experiência. Mas, se quisermos esmiuçar ainda mais e indagarmos: Qual é o fundamento de todas as conclusões tiradas da experiência?, isso implica em uma nova questão que pode ser mais difícil de resolver e explicar. [...] Nesta seção me contentarei com uma tarefa fácil, simulando uma resposta negativa à questão aqui proposta. Digo, pois, que, mesmo depois de termos experiência das operações de causa e efeito, as conclusões que tiramos dessa experiência não são fundadas no raciocínio ou em qualquer processo do entendimento. (Seção IV. pp 138, 140, 141)
Intento neste trabalho expor a célebre “solução cética” (seção V) de Hume para as dúvidas levantadas por ele na seção IV e por fim fazer uma breve apreciação sobre o estatuto dessa “solução cética”. Na seção V, Hume apresenta duas idéias centrais. A primeira que não é por argumentos que o entendimento infere a causalidade de certo evento, mas sim pela experiência. O pensar e o sentir estão ligados e se afetam de maneira recíproca. A segunda se refere à inclinação do entendimento a formular juízos a priori, graças às associações de idéias (semelhança, contigüidade, causa e efeito), de modo que ao fazer experiência de um evento, o entendimento liga-se a uma experiência passada similar (por meio da memória), e supõe que o futuro possa ser irremediavelmente como o passado. Para tanto, o filósofo expõe o conceito de crença. Ela é uma inclinação humana que faz o entendimento preferir uma hipótese a outra no processo da suposta causalidade entre os objetos, em conseqüência do hábito. Esse último é de tamanha intensidade na natureza humana que faz com que a experiência sensível com a regularidade causal possa parecer uma lei natural, tornando (no entendimento) contínua, e não fragmentada, a sucessão entre os diversos eventos.
2 SEÇÃO V – “SOLUÇÃO CÉTICA DESTAS DÚVIDAS”
2.1 Parte I
Para David Hume existe uma espécie de filosofia que não se coaduna com nenhuma afeição ou inclinações naturais da mente humana. É a filosofia acadêmica ou cética. Essa espécie de filosofia alerta para o perigo das decisões apressadas. Essas podem “encerrar dentro de estreitos limites as indagações do entendimento” (p. 144). E nada pode ser mais trágico a qualquer filosofia que a “supina do intelecto, à arrogância temerária, às exageradas pretensões e à credulidade supersticiosa” (p. 144). Essas pretensões trágicas são “mortificadas” (p. 144) pela filosofia cética. Apenas a verdade é salva. Mas mesmo a verdade “é uma paixão que nunca é nem pode ser levada ao excesso” (p. 144). A preocupação da filosofia cética é tão somente com a possibilidade da verdade. Valendo-se da filosofia cética, então, Hume vai apontar soluções para os problemas levantados na seção IV.
Em “todos os raciocínios derivados da experiência o intelecto dá um passo que não se apóia em nenhum argumento ou processo do entendimento”. Desse passo decorrem as noções de causalidade a partir da constatação de certa regularidade dos eventos; decorrem, portanto, as inferências causais. Mas, “se o intelecto não é obrigado pelo argumento a dar esse passo, deve ser induzido por algum princípio de igual peso e autoridade” (p. 145). Cabe investigar, a partir disso, qual é esse princípio.
Sem a experiência, sem a empiria, uma pessoa não poderia conjecturar a “respeito de qualquer questão de fato ou ter certeza de qualquer coisa além do que tivesse imediatamente presente à sua memória e aos seus sentidos” (p. 145). O que essa experiência empírica produz?. Ela produz a inferência causal da existência de um objeto ao aparecimento de outro. Entretanto, há um “outro princípio que o determina[1] a tirar essa conclusão” (p. 145):
Esse princípio é o costume ou hábito. Com efeito, sempre que a repetição de algum ato ou operação particular produz uma propensão sem que sejamos impelidos por qualquer raciocínio ou processo do entendimento, dizemos que essa propensão é um efeito do hábito. (p. 145)
Portanto, essa propensão do homem a crer na repetição das operações dos eventos particulares é determinada, não pelo raciocínio, mas pelo hábito. E o hábito é estabelecido pelas experiências particulares. Nenhum argumento leva o entendimento a inferir a causalidade de certo evento, mas é a experiência que o leva.
“O hábito é, pois, o grande guia da vida humana” (p. 146). A utilidade do hábito é canalizar todas as questões de fato, além do que está presente na memória e possibilitar a maior parte da especulação humana. O problema resolvido é esse:
Se não nos baseamos em algum fato presente à memória ou aos sentidos, nossos raciocínios serão puramente hipotéticos; e, como quer que os elos particulares se ligassem uns aos outros, a cadeia toda de inferência não teria nada que a sustentasse, nem poderíamos nós, por meio dela, chegar ao conhecimento de qualquer existência real [...] ou então admitir que vossa crença não tem nenhum fundamento. (p. 147)
Tão somente pela empiria o hábito possibilita a especulação que funda a crença. A crença permite as inferências causais; as inferências são a(s) própria(s) crença(s). A conclusão: “Toda crença numa questão de fato ou de existência real deriva de algum objeto presente à memória ou aos sentidos, e de uma conjunção habitual entre esse objeto e algum outro” (p. 147).
2.2 Parte II
“Nada é mais livre do que a imaginação do homem” (p. 147). O seu limite é a base originária das idéias fornecidas pelos sentidos internos e externos. O seu poder ilimitado é o de associar idéias em todas as modalidades de ficção e visão. Entretanto, o que diferencia uma ficção de uma crença?.
[...] a diferença entre ficção e crença reside em alguma sensação ou sentimento que se anexa a esta última e não à primeira, e que não depende da vontade nem pode ser invocado à vontade. [...] Sempre que um objeto qualquer é apresentado à memória ou aos sentidos, leva imediatamente a imaginação, pela força do costume, a conceber o objeto que habitualmente o acompanha; e essa concepção é acompanhada de um sentimento ou sensação diferente dos livres devaneios da fantasia. É nisso que consiste toda a natureza da crença. (p. 148)
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O que caracteriza a diferença entre uma e outra é certo sentimento. Sentimento que é característico apenas da crença. A ficção é mera fantasia; não tem correspondência necessária com a realidade empírica. Esse certo sentimento é motivado pelo senso de realidade. A empiria, pela força do costume, afeta o entendimento que produz a sensação ou o sentimento que diferencia a crença da ficção. “[...] a crença não é senão uma concepção mais vívida, enérgica, vigorosa, firme e constante de um objeto, concepção essa que a imaginação jamais poderá atingir” (p. 148). O senso de realidade que acompanha a crença lhe dá uma influência superior sobre as paixões e sobre a imaginação (p. 148).
Todas as associações de idéias parecem nascidas da crença na relação entre causa e efeito. Se assim é, pode-se estabelecer que essa crença seja uma lei geral verificada em todas as operações da mente. Um exemplo disso a partir da associação por semelhança: “ [...] ao vermos o retrato de um amigo ausente, nossa idéia dele é incontestavelmente vivificada [...] e toda paixão que acompanha essa idéia, seja de alegria ou pesar, adquire nova força e vigor” (p. 149). A idéia é vivificada por meio da semelhança e traz consigo um traço muito intenso de realidade: a paixão. A causa da paixão foi a imagem do retrato, associada às experiências (sensíveis) anteriores com a personagem do retrato. Essa relação de causalidade entre a paixão e o retrato é permeada pela crença. A força habitual do convívio com a personagem do retrato proporcionou essa crença.
Todas as associações de idéias parecem nascidas da crença na relação entre causa e efeito. Se assim é, pode-se estabelecer que essa crença seja uma lei geral verificada em todas as operações da mente. Um exemplo disso a partir da associação por semelhança: “ [...] ao vermos o retrato de um amigo ausente, nossa idéia dele é incontestavelmente vivificada [...] e toda paixão que acompanha essa idéia, seja de alegria ou pesar, adquire nova força e vigor” (p. 149). A idéia é vivificada por meio da semelhança e traz consigo um traço muito intenso de realidade: a paixão. A causa da paixão foi a imagem do retrato, associada às experiências (sensíveis) anteriores com a personagem do retrato. Essa relação de causalidade entre a paixão e o retrato é permeada pela crença. A força habitual do convívio com a personagem do retrato proporcionou essa crença.
Assim, “os objetos sensíveis têm sempre uma influência maior sobre a imaginação do que quaisquer outros; e essa influência eles a transmitem prontamente às idéias com que se relacionam e a que se assemelham” (p. 149). E é claro que a distância diminui a força de toda idéia, porem ela (a idéia) atua sobre a mente como se estivesse imitando a impressão imediata. Essa imitação da experiência imediata pode gerar o sentimento próprio da crença; a vivacidade. Todavia, a impressão imediata ainda conterá vivacidade superior a da gerada pela associação de idéias.
Ora, insistentemente neste trabalho, a crença não procede da razão, mas “tira sua origem exclusivamente do hábito e da experiência” (p. 150). Contudo, por que habituamos tão vivazmente a ligar pela presença de um objeto um outro objeto correlato?. É sempre o objeto presente, pelo hábito, que se dá solidez ao seu correlato, mas esse correlato significa: à sua idéia correlata, não o objeto correlato. A crença é a crença da idéia de causalidade. Não da presença de dado objeto a partir de outro, mas suas relações, de certa predição de dado evento.
Temos assim, um “princípio pelo qual se estabeleceu essa correspondência tão necessária à subsistência de nossa espécie e à regulação de nossa conduta, em todas as circunstâncias e ocorrências da vida humana” (p. 150): o hábito. Viabilizador da crença. Portanto, a crença é extremamente útil à vida prática. Afinal, se não fosse por ela “todo o nosso conhecimento se limitaria à esfera de nossa memória e sentidos” (p. 150). E, se assim fosse, não teríamos como ajustar os meios às finalidades e não poderíamos utilizar nossas habilidades na produção de algum bem ou no afastamento de algum mal.
Disso tudo, embora a natureza não tenha nos ensinado sobre os músculos e nervos pelos quais atuam os membros, ela nos ensinou a utilidade desses últimos; e embora desconheçamos os poderes e forças intrínsecas aos objetos, a natureza “implantou em nós um instinto que faz avançar o pensamento por linhas de sucessão correspondentes às que estabeleceu entre os objetos” (p. 151). O hábito e a crença possibilitam um conhecimento possível, portanto. Não um conhecimento indubitável. A crença é o limite do conhecimento humano.
3 O ESTATUTO DA “SOLUÇÃO CÉTICA” HUMEANA
Chibeni em um artigo sobre Hume relata que:
Segundo Goodman, ‘devemos desculpas tardias a Hume’ (1983, p. 64), por haver interpretado aquilo que ele mesmo chamou de ‘solução cética’ de seu problema como se não fosse nenhuma solução. A solução é cética na medida em que se desenvolve fora do âmbito tradicional do entendimento, mas nem por isso deixa de ser uma solução. (CHIBENI, ?)
Parece-me que a solução cética de Hume resolve o problema da origem das predições do pensamento, não da legitimidade delas. Ele investiga o processo pelo qual o entendimento faz as predições, mas a questão da permissão de fazê-las passa intacta na investigação. Hume indica as origens das crenças, mas não estabelece a validade dessas. Então, em acordo com Goodmam citado por Chibeni, a questão de Hume (por isso sua solução cética) é não como uma predição é feita, mas como pode ser justificada. Nesse ponto somente a suspensão de juízo parece à solução possível e razoável, embora insatisfatória para a tradição da epistemologia anterior (e ulterior!) a Hume.
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Referência
CHIBENI, Silvio Seno. As inferências causais na teoria epistemológica de Hume. Disponível em <http://www.unicamp.br/~chibeni/public/humeinferencias.pdf.> Acesso em: 10 nov. 2007.
Referência
CHIBENI, Silvio Seno. As inferências causais na teoria epistemológica de Hume. Disponível em <http://www.unicamp.br/~chibeni/public/humeinferencias.pdf.> Acesso em: 10 nov. 2007.
[1] O entendimento humano.
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