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Karl Popper: resenha dos parágrafos 09 a 11, primeira parte, d' A lógica da investigação científica
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INDICAÇÃO BIBLIOGRÁFICA
POPPER, Karl. A lógica da investigação científica. In: Popper, Schlick e Carnap. São Paulo: Abril Cultural, 1975. (Os Pensadores) pp. 281-286.
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POPPER, Karl. A lógica da investigação científica. In: Popper, Schlick e Carnap. São Paulo: Abril Cultural, 1975. (Os Pensadores) pp. 281-286.
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1 INTRODUÇÃO
A apresentação do presente texto tem como objetivo expor uma resenha crítica do capítulo segundo da parte I da obra supracitada. O trecho a ser resenhado corresponde aos parágrafos de 09 a 11 da primeira parte, nos quais o filósofo austríaco Karl Popper (Viena, 28 de julho de 1902 - Londres, 17 de setembro de 1994) pensa sobre o problema de uma teoria do método científico. No parágrafo 09, Popper levanta argumentos para justificar a necessidade de uma metodologia científica; no parágrafo seguinte faz uma crítica ao método naturalista dos positivistas lógicos do Círculo de Viena, em especial às investigações em torno da linguaguem; por fim no parágrafo 11 propõe regras gerais que podem possibilitar convenções metodológicas a cerca dos enunciados lógicos e empíricos de uma teoria científica. O trabalho será dividido em três partes: na primeira tratarei de contextualizar o tempo lógico da obra A lógica da investigação científica, para tanto analisarei de maneira muito breve a idéia de um racionalismo crítico popperiano; na segunda parte recorrerei a trechos de um artigo do cientista político Túlio Velho Barreto[1] para expor o tempo histórico de Popper: o Círculo de Viena; na terceira parte finalmente apresentarei de fato a resenha crítica do trecho comentado acima.
2 O LEGADO DE POPPER
O legado de Karl Popper é conhecido como a filosofia do racionalismo crítico. Essa se ocupa primordialmente de questões relativas aos limites e possibilidades da epistemologia ou, de modo geral, da ciência contemporânea. Na Áustria, em 1934, foi publicado seu primeiro livro, Logic der Forschung (A Lógica da Pesquisa Científica), no qual o filósofo emprega uma crítica ao positivismo lógico do Círculo de Viena e defende a concepção de que todo o conhecimento pode ser falível e, se for provado falho, pode ser corrigido; todo conhecimento também tem um caráter provisório. O cerne dessa crítica de Popper corresponde à sua frase: “não sabemos: somente podemos conjecturar” (p. 382).
O problema geral enfrentado por Popper na obra é responder qual o estatuto da ciência. Partindo desse problema, ele propõe estabelecer critérios de cientificidade para a própria ciência. Duas preocupações principais são bases para elaborar esses critérios ou método: 1) procurar aprofundar os elementos que podem tornar efetivamente rigorosa a pesquisa científica e 2) a ciência deve ter o compromisso com certo tipo de resultados e conclusões.
Os elementos que tornarão uma pesquisa científica rigorosa são os procedimentos de correção lógica dos enunciados de uma teoria e a verificabilidade na experiência desses mesmos enunciados. O compromisso da ciência é comprovar seus resultados por meio da base empírica e suas conclusões não podem ser de ordem absoluta, mas provisória.
A noção segundo a qual se caracteriza a filosofia popperiana de racionalista é a seguinte: as teorias científicas perseguem a verdade objetiva por meio da comprovação empírica de seus enunciados lógicos, assim, os objetos estudados devem ser sempre conhecidos pela experiência. O criticismo popperiano é fundamentado na idéia de falseabilidade: quando uma teoria (T1) é corroborada pela experiência, então, ela passa ao status de ciência. Se uma outra teoria (T2), que se preocupa com o mesmo objeto de T1, demonstra-se mais aplicável na experiência, então ela substitui a anterior e passa ao status de ciência e ao de conhecimento seguro vigente[2]. Porém, conhecimento provisório. Afinal T3 pode demonstra-se mais verificável na base empírica e desbancar a vigência da teoria anterior, e assim sucessivamente. Portanto, o racionalismo crítico de Karl Popper merece segundo Carvalho (1995, p. 56-58) mérito em dois aspectos: Popper resgata a racionalidade da ciência frente ao problema humeano de indução[3] e retoma a problemática kantiana da demarcação entre ciência e pseudociência ou construções teóricas[4], com a solução de uma base empírica como critério de demarcação, resultante do princípio de dedução. Carvalho (1995, p. 67) ainda destaca a principal conseqüência do racionalismo crítico popperiano: a possibilidade do progresso na ciência frente ao absolutismo epistemológico dogmático e a miserável irracionalidade cética.
3 O CÍRCULO DE VIENA
A apresentação do presente texto tem como objetivo expor uma resenha crítica do capítulo segundo da parte I da obra supracitada. O trecho a ser resenhado corresponde aos parágrafos de 09 a 11 da primeira parte, nos quais o filósofo austríaco Karl Popper (Viena, 28 de julho de 1902 - Londres, 17 de setembro de 1994) pensa sobre o problema de uma teoria do método científico. No parágrafo 09, Popper levanta argumentos para justificar a necessidade de uma metodologia científica; no parágrafo seguinte faz uma crítica ao método naturalista dos positivistas lógicos do Círculo de Viena, em especial às investigações em torno da linguaguem; por fim no parágrafo 11 propõe regras gerais que podem possibilitar convenções metodológicas a cerca dos enunciados lógicos e empíricos de uma teoria científica. O trabalho será dividido em três partes: na primeira tratarei de contextualizar o tempo lógico da obra A lógica da investigação científica, para tanto analisarei de maneira muito breve a idéia de um racionalismo crítico popperiano; na segunda parte recorrerei a trechos de um artigo do cientista político Túlio Velho Barreto[1] para expor o tempo histórico de Popper: o Círculo de Viena; na terceira parte finalmente apresentarei de fato a resenha crítica do trecho comentado acima.
2 O LEGADO DE POPPER
O legado de Karl Popper é conhecido como a filosofia do racionalismo crítico. Essa se ocupa primordialmente de questões relativas aos limites e possibilidades da epistemologia ou, de modo geral, da ciência contemporânea. Na Áustria, em 1934, foi publicado seu primeiro livro, Logic der Forschung (A Lógica da Pesquisa Científica), no qual o filósofo emprega uma crítica ao positivismo lógico do Círculo de Viena e defende a concepção de que todo o conhecimento pode ser falível e, se for provado falho, pode ser corrigido; todo conhecimento também tem um caráter provisório. O cerne dessa crítica de Popper corresponde à sua frase: “não sabemos: somente podemos conjecturar” (p. 382).
O problema geral enfrentado por Popper na obra é responder qual o estatuto da ciência. Partindo desse problema, ele propõe estabelecer critérios de cientificidade para a própria ciência. Duas preocupações principais são bases para elaborar esses critérios ou método: 1) procurar aprofundar os elementos que podem tornar efetivamente rigorosa a pesquisa científica e 2) a ciência deve ter o compromisso com certo tipo de resultados e conclusões.
Os elementos que tornarão uma pesquisa científica rigorosa são os procedimentos de correção lógica dos enunciados de uma teoria e a verificabilidade na experiência desses mesmos enunciados. O compromisso da ciência é comprovar seus resultados por meio da base empírica e suas conclusões não podem ser de ordem absoluta, mas provisória.
A noção segundo a qual se caracteriza a filosofia popperiana de racionalista é a seguinte: as teorias científicas perseguem a verdade objetiva por meio da comprovação empírica de seus enunciados lógicos, assim, os objetos estudados devem ser sempre conhecidos pela experiência. O criticismo popperiano é fundamentado na idéia de falseabilidade: quando uma teoria (T1) é corroborada pela experiência, então, ela passa ao status de ciência. Se uma outra teoria (T2), que se preocupa com o mesmo objeto de T1, demonstra-se mais aplicável na experiência, então ela substitui a anterior e passa ao status de ciência e ao de conhecimento seguro vigente[2]. Porém, conhecimento provisório. Afinal T3 pode demonstra-se mais verificável na base empírica e desbancar a vigência da teoria anterior, e assim sucessivamente. Portanto, o racionalismo crítico de Karl Popper merece segundo Carvalho (1995, p. 56-58) mérito em dois aspectos: Popper resgata a racionalidade da ciência frente ao problema humeano de indução[3] e retoma a problemática kantiana da demarcação entre ciência e pseudociência ou construções teóricas[4], com a solução de uma base empírica como critério de demarcação, resultante do princípio de dedução. Carvalho (1995, p. 67) ainda destaca a principal conseqüência do racionalismo crítico popperiano: a possibilidade do progresso na ciência frente ao absolutismo epistemológico dogmático e a miserável irracionalidade cética.
3 O CÍRCULO DE VIENA
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O Círculo de Viena surgiu nas primeiras duas décadas do século XX, como um movimento em reação à filosofia idealista e especulativa presente nas universidades alemãs. A intenção dos positivistas lógicos era divulgar uma nova concepção de cientificidade, caracterizada principalmente pela constituição de uma ciência unificada, que reunisse todos os conhecimentos proporcionados pelas diferentes áreas do conhecimento; eliminação da metafísica na estrutura dessa concepção, pois não se pode chegar ao conhecimento daquilo que está além da experiência e análise lógica dos enunciados teóricos como método fundamental da ciência.
O Círculo de Viena surgiu nas primeiras duas décadas do século XX, como um movimento em reação à filosofia idealista e especulativa presente nas universidades alemãs. A intenção dos positivistas lógicos era divulgar uma nova concepção de cientificidade, caracterizada principalmente pela constituição de uma ciência unificada, que reunisse todos os conhecimentos proporcionados pelas diferentes áreas do conhecimento; eliminação da metafísica na estrutura dessa concepção, pois não se pode chegar ao conhecimento daquilo que está além da experiência e análise lógica dos enunciados teóricos como método fundamental da ciência.
O Círculo de Viena ganhou notoriedade a partir da divulgação do Manifesto A Concepção Científica do Mundo, de 1929, subscrito por Hans Hahn, Otto Neurath e Rudolf Carnap, [...] para eles, era especialmente importante, a idéia de Wittgenstein de que “toda proposição é significativa, fornece alguma informação acerca do estado atual do mundo, na medida em que afirme a ocorrência de certos fatos atômicos e exclua a ocorrência de outros. O valor de verdade de uma proposição deve, pois, poder ser determinado a partir do conhecimento da ocorrência, ou não-ocorrência, dos fatos atômicos envolvidos. Imaginando-se uma linguagem capaz de exprimir cada fato atômico, toda proposição significativa poderia ser reduzida a uma combinação de proposições atômicas mediante funções de verdade, de modo a ficar o valor de verdade da proposição complexa univocamente determinada pelos valores de verdade das proposições atômicas componentes”. Dessa concepção resultou o princípio da verificabilidade [...] o significado de uma proposição está relacionado diretamente aos dados empíricos que resultam de sua observação e que, uma vez existentes, dão veracidade à proposição. Quando isso não ocorre, pode-se concluir que a proposição é falsa. [...] Finalmente, eles estenderam à filosofia a crítica então formulada à metafísica, pois só teria valor científico o que pudesse ser verificado empiricamente. Assim, percebe-se logo a razão da importância que a lingüística teve para os empiricistas lógicos. [...] Ocorre que tais princípios levaram a um impasse com relação, por exemplo, às leis naturais que não podem ser plena e definitivamente verificadas. Para resolvê-lo, Schlick propôs que as leis naturais fossem tomadas não como proposições, mas como regras das quais pudessem ser deduzidas proposições, sendo, então, passíveis de verificação. Mas, essa formulação sofreu resistência de Carnap, que argumentava que, mesmo tais proposições, não poderiam ser submetidas ao princípio de verificação. Como conseqüência, Carnap deu nova forma ao princípio, concebendo as idéias ou noções de confirmabilidade e testabilidade a fim de concluir se uma proposição teria significado ou não. De tal forma que, em vez de verificar se determinada proposição tinha comprovação empírica ou não, Carnap passou a defender a verificação de certo grau de confirmabilidade daquela segundo dados empiricamente observados. Quanto à testabilidade, Carnap estava preocupado em saber em que grau uma proposição poderia ser submetida à confirmação ou não. [...] Mas a própria identificação de Popper com o Círculo e tais idéias, bem como a natureza dessa relação, é polêmica. [...] há quem o veja como o principal herdeiro do positivismo lógico, embora de uma perspectiva bastante crítica. [Pois,] procurando escapar dos impasses gerados pela adoção do princípio de verificação e pela exigência do estabelecimento conclusivo da verdade das proposições fundamentais, Popper formulou [...] “uma inversão desse princípio, através de seu princípio da falsificabilidade” (Marcondes, 1998, p. 263). Outros autores vão mais além e defendem que Popper pretendeu superar os positivistas ou empiricistas lógicos do Círculo de Viena. (BARRETO, 2001)
Um dos elementos centrais do positivismo lógico era a importância da lingüística na formulação do conhecimento a partir da experiência material. Era necessário estabelecer uma linguagem científica. Considerava-se que, se houvesse erros em teoria, esse estava na linguagem expressa nos enunciados, e não na ordem das coisas. O método adotado era indutivo: a partir dos diversos fatos particulares, chegaríamos, através de um procedimento indutivo, aos conceitos universais com os quais criamos as teorias (CONDÉ, 1996). Por exemplo: a partir de inúmeras observações, constata-se que a água ferve a 100 graus e que, sempre nas mesmas condições, isso ocorrerá sempre. A ciência seria uma soma de enunciados desse tipo. Aqui podemos estabelecer uma das críticas mais contundentes ao Empirismo Lógico: seus enunciados científicos tinham o fundamento último nos fatos, nos dados da experiência. A razão seria usada apenas como especulação.
Nesse ponto é que Popper inicia suas críticas. Uma delas é justamente em relação ao método indutivo. Popper, como expresso na seção anterior, foi totalmente contra a indução. Ele ataca o princípio com a seguinte questão: Qual é a justificação para a crença de que o futuro será (amplamente) como o passado? Ou, talvez, qual é a justificativa para as inferências indutivas?.
4 O PROBLEMA DE UMA TEORIA DO MÉTODO CIENTÍFICO
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Capítulo II – Parte I
A metodologia científica transcende a análise lógica das relações dos enunciados científicos e, assim, tem como preocupação a escolha de métodos. A decisão da adoção de regras apropriadas para a proposta popperiana deve respeitar as exigências do “método empírico” (p. 281), conforme o critério de demarcação. Dessa maneira, Popper adota regras que possibilitem a falseabilidade dos enunciados científicos.
Tomando como referência as questões: “o que são as regras do método científico e por que delas precisamos?; e, pode existir uma teoria dessas regras, em metodologia?” (p. 281), Popper inicia um debate conceitual com os positivistas lógicos do Círculo de Viena.
Preocupa-se, a fim de procurar responder as indagações anteriores, diferenciar sua intenção com a daqueles. Para os positivistas lógicos os enunciados devem apenas satisfazer certos critérios lógicos de significabilidade e verificabilidade. Entretanto, para Popper, os enunciados devem sofrer revisões – deve-se criticá-los e se for possível substituí-los por outros melhores. A diferença em destaque, então, é a inviabilidade dos positivistas lógicos em reformular os enunciados científicos e a proposta popperiana de avaliação crítica desses enunciados com a possibilidade de modificá-los a fim de corrigi-los.
Popper admite necessária, sim, uma análise puramente lógica dos enunciados de uma teoria, mas salienta que os enunciados devem ser revisitados e criticados. “Jamais se pode produzir uma refutação conclusiva de uma teoria, pois sempre é possível dizer que os resultados experimentais não são dignos de crédito [...] “ (p. 282). A posição dogmática dos positivistas lógicos em relação à experiência e com relação à rejeição de modificação dos enunciados lógicos é o alvo do ataque de Popper.
A defesa dos positivistas lógicos consiste em dizer que os problemas significativos fora do campo da ciência empírica, ou seja, os problemas filosóficos são como pseudoproblemas. Eles têm sentido (correção lógica), mas não possuem significados (não têm natureza empírica).
O contra argumento de Popper é simples. Ora, ao longo da história da própria filosofia ela se demonstra, em certo sentido, como o meio de “analise crítica do apelo à autoridade da ‘experiência’” (p. 283). Tão somente a filosofia, portanto, para analisar a ciência significativa, positiva e empírica.
Para os positivistas lógicos existem apenas dois tipos de enunciados: as tautologias lógicas e os enunciados empíricos e a metodologia é exclusivamente a lógica. Nesse sentido, os positivistas lógicos herdaram dos positivistas clássicos a idéia de que os enunciados devem ser suficientemente rigorosos e ter validade por si mesmos. A essa concepção somou-se a idéia de que aqueles enunciados rigorosos só têm validade quando refletem fatos ocorridos na experiência.
Eis o problema de Popper neste capítulo: as concepções de métodos entre o positivismo dito clássico e o positivismo lógico. De um lado há a idéia de significatividade: correção lógica dos enunciados. É o sentido, ausente de seu significado. Do outro há a noção de verificabilidade: os enunciados lógicos devem corresponder à experiência. Os enunciados empíricos (aqueles que são aferidos pela experiência) são, então, as grandes preocupações dos positivistas. Qualquer enunciado que não corresponda a um significado é encarado como pseudoproblema.
Mais uma vez o contra argumento popperiano é simples. Popper propõe tanto a verificação com a base empírica dos enunciados (empíricos), quanto à correção lógica dos enunciados que se demonstrarem falsamente empíricos. A essa correção dos enunciados do interior de uma teoria, Popper dirá ser um procedimento puramente lógico nos enunciados científicos. O princípio que será a ferramenta metodológica não pode ser o de indução, pois ele caracteriza uma concepção naturalista da ciência que se mostra não crítica. Para seu método empírico, então, Popper se vale do princípio de dedução.
As regras do método científico são: 1) “Em princípio o jogo da ciência não tem fim. Aquele que decidir que os enunciados científicos não exigem nenhum teste posteriori, e que se pode considerá-los como finalmente verificados, sai do jogo” (p. 284), Assim, todos os enunciados que se dizem científicos devem passar pela verificabilidade. 2) “Uma vez que se propôs e testou uma hipótese e que se provou sua tempera, não se pode permitir que ela seja eliminada sem ‘boas razões’. Uma ‘boa razão’ pode ser, por exemplo, substituição da hipótese por outra mais testável [...]”. Nesse sentido. Os enunciados que passaram pela verificação não devem ser encarados como verdades absolutas, mas com caráter provisório. E sempre que outros enunciados forem mais testáveis, devem-se rejeitar os enunciados antigos e substituí-los.
Referências
Capítulo II – Parte I
A metodologia científica transcende a análise lógica das relações dos enunciados científicos e, assim, tem como preocupação a escolha de métodos. A decisão da adoção de regras apropriadas para a proposta popperiana deve respeitar as exigências do “método empírico” (p. 281), conforme o critério de demarcação. Dessa maneira, Popper adota regras que possibilitem a falseabilidade dos enunciados científicos.
Tomando como referência as questões: “o que são as regras do método científico e por que delas precisamos?; e, pode existir uma teoria dessas regras, em metodologia?” (p. 281), Popper inicia um debate conceitual com os positivistas lógicos do Círculo de Viena.
Preocupa-se, a fim de procurar responder as indagações anteriores, diferenciar sua intenção com a daqueles. Para os positivistas lógicos os enunciados devem apenas satisfazer certos critérios lógicos de significabilidade e verificabilidade. Entretanto, para Popper, os enunciados devem sofrer revisões – deve-se criticá-los e se for possível substituí-los por outros melhores. A diferença em destaque, então, é a inviabilidade dos positivistas lógicos em reformular os enunciados científicos e a proposta popperiana de avaliação crítica desses enunciados com a possibilidade de modificá-los a fim de corrigi-los.
Popper admite necessária, sim, uma análise puramente lógica dos enunciados de uma teoria, mas salienta que os enunciados devem ser revisitados e criticados. “Jamais se pode produzir uma refutação conclusiva de uma teoria, pois sempre é possível dizer que os resultados experimentais não são dignos de crédito [...] “ (p. 282). A posição dogmática dos positivistas lógicos em relação à experiência e com relação à rejeição de modificação dos enunciados lógicos é o alvo do ataque de Popper.
A defesa dos positivistas lógicos consiste em dizer que os problemas significativos fora do campo da ciência empírica, ou seja, os problemas filosóficos são como pseudoproblemas. Eles têm sentido (correção lógica), mas não possuem significados (não têm natureza empírica).
O contra argumento de Popper é simples. Ora, ao longo da história da própria filosofia ela se demonstra, em certo sentido, como o meio de “analise crítica do apelo à autoridade da ‘experiência’” (p. 283). Tão somente a filosofia, portanto, para analisar a ciência significativa, positiva e empírica.
Para os positivistas lógicos existem apenas dois tipos de enunciados: as tautologias lógicas e os enunciados empíricos e a metodologia é exclusivamente a lógica. Nesse sentido, os positivistas lógicos herdaram dos positivistas clássicos a idéia de que os enunciados devem ser suficientemente rigorosos e ter validade por si mesmos. A essa concepção somou-se a idéia de que aqueles enunciados rigorosos só têm validade quando refletem fatos ocorridos na experiência.
Eis o problema de Popper neste capítulo: as concepções de métodos entre o positivismo dito clássico e o positivismo lógico. De um lado há a idéia de significatividade: correção lógica dos enunciados. É o sentido, ausente de seu significado. Do outro há a noção de verificabilidade: os enunciados lógicos devem corresponder à experiência. Os enunciados empíricos (aqueles que são aferidos pela experiência) são, então, as grandes preocupações dos positivistas. Qualquer enunciado que não corresponda a um significado é encarado como pseudoproblema.
Mais uma vez o contra argumento popperiano é simples. Popper propõe tanto a verificação com a base empírica dos enunciados (empíricos), quanto à correção lógica dos enunciados que se demonstrarem falsamente empíricos. A essa correção dos enunciados do interior de uma teoria, Popper dirá ser um procedimento puramente lógico nos enunciados científicos. O princípio que será a ferramenta metodológica não pode ser o de indução, pois ele caracteriza uma concepção naturalista da ciência que se mostra não crítica. Para seu método empírico, então, Popper se vale do princípio de dedução.
As regras do método científico são: 1) “Em princípio o jogo da ciência não tem fim. Aquele que decidir que os enunciados científicos não exigem nenhum teste posteriori, e que se pode considerá-los como finalmente verificados, sai do jogo” (p. 284), Assim, todos os enunciados que se dizem científicos devem passar pela verificabilidade. 2) “Uma vez que se propôs e testou uma hipótese e que se provou sua tempera, não se pode permitir que ela seja eliminada sem ‘boas razões’. Uma ‘boa razão’ pode ser, por exemplo, substituição da hipótese por outra mais testável [...]”. Nesse sentido. Os enunciados que passaram pela verificação não devem ser encarados como verdades absolutas, mas com caráter provisório. E sempre que outros enunciados forem mais testáveis, devem-se rejeitar os enunciados antigos e substituí-los.
Referências
BARRETO, T. V. Positivismo versus teoria crítica em torno do debate entre Karl Popper e Theodor Adorno acerca do método das ciências sociais, 2001. Disponível em http://www.fundaj.gov.br/tpd/106.html. Acesso em 05 de out. de 2007
CARVALHO, M. C. M. Não sabemos: só podemos conjecturar. In: PEREIRA, J. C. R. (Org.). Popper: as aventuras da racionalidade. Porto Alegre: Edipucrs, 1995, p. 49-68.
CONDÉ, M. L. L. O Circulo de viena e o Empirismo Lógico. Caderno de Filosofia e Ciências Humanas, Belo Horizonte, v. 5, p. 98-106, 1995.
CARVALHO, M. C. M. Não sabemos: só podemos conjecturar. In: PEREIRA, J. C. R. (Org.). Popper: as aventuras da racionalidade. Porto Alegre: Edipucrs, 1995, p. 49-68.
CONDÉ, M. L. L. O Circulo de viena e o Empirismo Lógico. Caderno de Filosofia e Ciências Humanas, Belo Horizonte, v. 5, p. 98-106, 1995.
LANG DA SILVEIRA, F. A Filosofia da Ciência de Karl Popper: O Racionalismo Crítico. Caderno Catarinense de Ensino de Física, Florianópolis, v.13, n.3. p. 197-218, dez. 1996.
Notas
[1] Além de cientista político é também pesquisador da fundação Joaquim Nabuco. A fundação é uma iniciativa do Governo Federal brasileiro e tem como missão: produzir, acumular e difundir conhecimentos; resgatar e preservar a memória; promover atividades científicas e culturais, visando à compreensão e ao desenvolvimento da sociedade brasileira, prioritariamente a do Norte e do Nordeste do país.
Home page de fundação disponível em http://www.fundaj.gov.br/
[2] A esse respeito utilizo um bom exemplo encontrado em um artigo de Fernando Lang da Silveira: “Isto se dá com a teoria geral da relatividade em relação à teoria de Newton; a segunda é uma excelente aproximação da primeira para baixas velocidades e campos gravitacionais fracos. Todos os problemas que a antiga teoria resolveu com sucesso, a nova também resolve e alguns, como o caso do periélio anômalo de Mercúrio que era incompatível com a mecânica newtoniana, também são explicados pela teoria geral da relatividade. Adicionalmente a teoria de Einstein fez predições sobre aspectos da realidade sobre os quais a de Newton não se pronunciava (é o caso do desvio da luz por campos gravitacionais, corroborado no eclipse de 1919)”.
LANG DA SILVEIRA, Fernando. A Filosofia da Ciência de Karl Popper: O Racionalismo Crítico. Caderno Catarinense de Ensino de Física, Florianópolis, v.13, n.3. p. 197-218, dez. 1996. Disponível em http://www.if.ufrgs.br/~lang/POPPER.pdf.
[3] O princípio de indução com base empírica, como queria Francis Bacon, deveria exercer a função instrumental de viabilizar a ciência, por meio dos argumentos de inferências. O compromisso da ciência seria então o de desvendar as leis gerais da natureza. Essas leis teriam o caráter de conhecimento absoluto. A expressão de maior destaque dessa noção de ciência: utilização de argumentos de inferências e de caráter de certeza indubitável do conhecimento é a física de Newton. As 03 leis básicas do movimento: 1) atração; 2) causa e efeito e 3) ação e reação, explicam desde a queda de uma moeda do bolso de um homem até a órbita dos astros do sistema solar. Além disso, a física newtoniana é capaz de prever os movimentos dos corpos, afinal as leis fundamentais do movimento correspondem à decifração dos poderes intrínsecos os objetos (em certo sentido à “essência” dos objetos). Certos do conhecimento das leis que regem o movimento dos corpos, podemos com segurança inferir que dado efeito será realizado após certa causa, se tivermos a experiência anterior de um evento de mesma causa. Quem atacará essa noção de inferência e de decifração dos poderes intrínsecos os objetos na construção do conhecimento será David Hume. Hume apresenta limites ao conhecimento humano e retrata que é possível somente um conhecimento aproximativo em relação às causas e efeitos dos eventos, dada a impossibilidade da inferência com base empírica. Russel, dirá que Hume, ao destruir a base segura (empírica) da ciência moderna foi a “bancarrota da racionalidade do século XVIII”.
[4] “O encontro de um critério aceitável de demarcação deve ser uma tarefa crucial para qualquer epistemologia que não aceita a lógica indutiva”. (p. 270). “Entre as muitas objeções que se pode levantar contra a concepção aqui apresentada, a mais séria é talvez a seguinte. Ao rejeitar o método da indução, pode-se dizer que privo a ciência empírica do que parece ser sua mais importante característica; e isto significa que removo as barreiras que separam a ciência da especulação metafísica. Minha resposta a esta objeção é que minha principal razão para rejeitar a lógica indutiva é precisamente que ela não proporciona um marco discriminador apropriado do caráter empírico, não metafísico, de um sistema teórico; ou, em outras palavras, que ela não proporciona um ‘critério de demarcação’ apropriado”. (p. 269).
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