A etimologia da palavra secularização tem dois sentidos distintos: do latim medieval saecularis, que significa a apropriação dos bens da Igreja por parte do Estado, além de significar, no direito canônico, o ato jurídico que concede ao religioso o indulto de desligar-se de sua congregação e viver no "mundo secular". Em um outro sentido etimológico a palavra deriva do inglês secular, que indica o fenômeno histórico-social, no qual, no começo do século XIII, a sociedade européia iniciou um movimento de libertação da Igreja e dos seus preceitos morais. Nesse sentido, o conceito geral de secularização pode ser definido como o processo de libertação pelo qual a sociedade e a cultura vêm desenvolvendo para emancipar-se das instituições de âmbito sagrado ou religioso.
Entretanto, o conceito de secularização pode ser também compreendido com peculiaridades em diversos sentidos, nos quais ele se desenvolveu historicamente: no sentido jurídico-canônico(como já mencionado), no sentido político com a Revolução Francesa em 1789, no sentido filosófico-cultural com o Humanismo e o Renascimento culminando no Iluminismo e no sentido sócio-moral; embora este último esteja intimamente atrelado ao antepenúltimo, com a legislação que prevê o aborto, o divórcio. Hoje, os resquícios disto, destacam-se a união dos homossexuais, os reflexos causados pelos meios de comunicação como rádio, televisão, cinema, música e Internet, ou ainda por exempl,o a formação da idéia de week end que se refere ao fim de semana e substitui o caráter sagrado do dia de domingo. De modo geral, podem-se entender movimentos na sociedade ocidental dos últimos pouco mais de 200 anos, como a tentativa de diminuir cada vez mais o campo da construção dos paradigmas ético-religiosos que orientam a sociedade, assim como diminuir a atuação clériga em instituições particulares: escolas, hospitais, etc, a fim de formar e fazer prevalecer (novos) paradigmas que valorizam os interesses burgueses.
2 DIFERENÇA ENTRE SECULARIZAÇÃO E SECULARISMO
O fundamento para que haja uma distinção entre secularização e secularismo é a afirmação - ou não - da possibilidade de transcendência por meio da experiência divina.
Com a autonomia da política, das leis e dos métodos do Estado em relação à religião, a secularização é apenas a constatação deste processo histórico de libertação, no qual é mantido o valor transcendental, ou seja, Deus não deve ser excluído absolutamente Porém, este valor transcendental deve ser buscado pela individualmente, não no coletivo de uma instituição como a Igreja, por exemplo. Por outro lado, o secularismo nega totalmente a transcendência e defende a independência das realidades humanas em função de Deus, pois considera que não há outros valores fora da realidade empírica.
3 PODER RELIGIOSO E O PODER POLÍTICO ENTRELAÇADOS
O nome no qual se refere ao período em que o poder religioso e o poder político estavam entrelaçados é Antigo Regime Medieval/Feudal, em referência às revoluções do século XVIII, principalmente à Francesa. Este Antigo Regime pode ser compreendido principalmente no estudo sobre a dinâmica do poder na Idade Média, na qual a Igreja abdicava ser detentora da ordem cósmica, em contra-partida o Império - e depois a Nobreza - também defendiam sua autoridade cósmica. Esta dualidade de poder fez com que medievais, adotando o modelo de S. Agostinho no De Civita Dei, elaborassem a teoria dos dois poderes: o terreno e o celeste (indicando até mesmo o problema filosófico que percorrerá toda a Idade Média: a relação entre fé e razão); desta forma, as relações de poder em toda a Europa foram cristinianizadas, a tal ponto de o cristianismo ser um componente essencial da identidade européia. Mesmo com o fato de a Europa ser formada por culturas diferentes, o ponto em comum entre estas foi a conversão ao cristianismo. Os Estados eram confessionais, ou seja, a religião cristã era oficial e, por isso, era presente em todas as instituições da sociedade, em particular na autoridade pública. Foi assim principalmente na França, na Inglaterra e na Itália.
4 DESDOBRAMENTOS DA REVOLUÇÃO FRANCESA NO CAMPO POLÍTICO, CULTURAL E SOCIAL
Na esfera política:
- Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão de 1789: "Ninguém pode ser modesto por suas opiniões, mesmo religiosas". Assim a cidadania se desprendeu da confissão religiosa;
- A Constituição Civil do Clero (1970), que impôs aos eclesiásticos um juramento de fidelidade à nova ordem, que retirou o poder da Igreja frente aos registros do estado civil, com a introdução do matrimônio civil, divórcio e dissolução das Ordens religiosas.
Na esfera cultural:
- A Revolução Francesa desencadeou um novo modo de pensamento fundamentado na razão, livre de dogmas. O Cientificismo, impulsionado pelo Positivismo, colocou-se como referencial de construção da verdade, excluindo totalmente a fé;
- Igrejas foram tomadas pelo Estado e transformadas em escolas tecnicistas.
Na esfera social:
- Instituições como família e religião perderam sua importância na construção e manutenção de valores morais da sociedade;
- Os preceitos de igualdade, fraternidade e liberdade foram difundidos como essenciais para a libertação do Antigo Regime, posto que não havia igualdade na hierarquia proposta pela Igreja, não havia liberdade no Feudalismo e nem havia fraternidade na relação de vassalagem;
- Revoltas foram constantes na sociedade francesa.
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