Poder e Sexualidade

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Poder e sexualidade: Hobsbawm e Foucault
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1 O historiador e a idéia de conexão necessária do poder com o sexo
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Sobre a relação dos temas do poder e da sexualidade, Hobsbawm em artigo de 1969 de título Revolução e Sexo[1], escreve que havia uma idéia amplamente difundida de que existia uma relação entre os movimentos revolucionários sociais de 1968 e a permissividade no comportamento sexual[2]. Porém, o historiador defende tese de que não há bases sólidas para esta idéia. Em sua contraprova à idéia de uma conexão necessária entre a libertação sexual com algum tipo de libertação social, Hobsbawm é bastante incisivo:

Sem dúvida, se é possível alguma generalização simplista sobre a relação entre domínio de classe e liberdade sexual é a de que os dominadores consideram conveniente estimular a permissividade ou lassidão sexual entre seus súditos apenas para conservar seu pensamento afastado do estado de sujeição em que se encontram. Ninguém jamais impôs o puritanismo sexual aos escravos – ao contrário. As sociedades em que a pobreza é estritamente mantida em seu lugar estão acostumadas a certas explosões de massa regulares e institucionalizadas de sexo livre, como os carnavais. De fato, como o sexo é a forma mais barata de divertimento , bem como a mais intensa (como dizem os napolitanos, a cama é a ópera do pobre), é politicamente muito vantajoso, sendo iguais os demais fatores, levar o povo a praticá-lo tanto quanto possível (Hobsbawm, 1982, p. 217).
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Para o autor não há nenhum tipo de conexão necessária entre a censura social ou política e a censura moral. Porém, enfatiza ele, que para um ato político só o é quando implica uma mudança das relações políticas. “Conquistar o direito de fazer amor entre brancos e negros na África do Sul seria um ato político, não porque amplie o âmbito do que é permitido sexualmente, mas porque ataca a opressão racial”[3].
Outra contraprova do historiador é uma advertência sobre a publicidade do final dos anos de 1960. Diz ele que para fins práticos, a batalha da publicidade que se relaciona com o sexo já foi ganha. “Mais isto aproximou mais a revolução social (...), da cama, da página da imprensa [ou] do divertimento público (...)?”[4]. O próprio autor responde que esta situação proporcionou abundâncias de manifestações públicas de sexo em uma ordem social que não foi alterada.
Com esses argumentos sobre a inexistência da conexão necessária entre a libertação sexual e a libertação política, convém a pergunta: por que, em 1968/1969 o tema da relação entre poder e sexualidade/revolução e sexo desempenhava papel tão importante na revolução cultural do Ocidente? Hobsbawm sugere: “ [...] hoje, no Ocidente, onde a força-motriz básica da rebeldia é a “alienação” mais que a pobreza, nenhum movimento que também não ataque o sistema de relações pessoais e de satisfações privadas pode ser revolucionário”[5]. Disto, o autor relata que a rebelião cultural e a dissidência cultural são sintomas sociais e não forças revolucionárias:

Quando os franceses entraram em greve geral em maio de 1968, os acontecimentos no Teatro Odeon e aquelas maravilhosas [!] inscrições “É proibido proibir, Quando faço revolução, sinto-me como se fizesse amor”, etc, poderiam ser vistos como formas menores de literatura e teatro, marginais aos eventos principais. Quanto mais visíveis estes fenômenos, mais certeza podemos ter de que os acontecimentos realmente decisivos não estão ocorrendo. Chocar a burguesia é, infelizmente, mais fácil que derrubá-la (Hobsbawm, 1982, p. 219-220).
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A importância da relação entre poder e sexualidade é a apreensão da correlação da liberdade sexual com a liberdade política; ou seja, é a investigação teórica da resposta para a pergunta: o ideário da liberdade sexual foi condição para uma revolução do desejo ou para uma revolução social?
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2 O poder e a sexualidade na história, pelo filósofo
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Em uma perspectiva foucaultiana, é possível relacionar o poder com a sexualidade na medida em que a sexualidade é considerada como uma das estratégias normalizadoras possíveis da sociedade e de seus cidadãos, por meio de práticas discursivas e não discursivas. Para essa análise é preciso entender como Foucault define poder:

Como um conjunto de instituições e aparelhos garantidores da sujeição dos cidadãos em um estado determinado. Também não entendo poder como um modo de sujeição que, por oposição à violência, tenha a forma de regra. Enfim, não o entendo como um sistema geral de dominação exercida por um elemento ou grupo sobre o outro e cujos efeitos, por derivações sucessivas, atravessem o corpo social inteiro (...). Parece-me que se deve compreender o poder, primeiro, como a multiplicidade de correlações de forças imanentes ao domínio onde se exercem e constitutivas de sua organização; o jogo que, através de lutas e afrontamentos incessantes as transforma, reforça, inverte; os apoios que tais correlações de força encontram umas nas outras, formando cadeias ou sistemas ou ao contrário, as defasagens e contradições que as isolam entre si; enfim, as estratégias em que se originam e cujo esboço geral ou cristalização institucional toma corpo nos aparelhos estatais, na formulação da lei, nas hegemonias sociais (FOUCAULT, 1993, p. 88-89).
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Desse modo, o poder não está vinculado a um conjunto de instituições que garantem a sujeição dos cidadãos a um Estado determinado. A dominação de um corpo político não pode ser entendida como dados iniciais ao analisar o conceito de poder; ele não é localizável, não é “propriedade” de alguém. Ao contrário: o poder está em toda a parte, ele provem de todos os lugares; ele é uma relação de forças que está presente em todos os segmentos de uma sociedade. Identificado o estatuto dos mecanismos de poder, é possível entender a relação que ele possui com o discurso da sexualidade, pois o poder não é opressor, não nega o sexo; o desejo e o poder se articulam.
As relações de poder são dinâmicas e passíveis de mudança o que possibilita manterem ou destruírem os esquemas de dominação vigentes.A idéia do pudor em relação ao sexo, por exemplo, foi fortalecida com a cultura individual que o capitalismo propôs. Na arquitetura medieval, era comum quartos grandes e sem portas nos palácios da Europa. Essa proposta de construção mudou de tal forma que no capitalismo além de portas os quartos possuem também banheiros. A privacidade tem muita relação com a mudança no modo de produção; com a passagem da sociedade relacional (feudal) para a individual (capitalista).
A premissa da repressão sexual mantém uma relação “dialética” com a necessidade de se dizer a verdade sobre o sexo, e é sobre isso que Foucault fala no primeiro volume da trilogia A História da Sexualidade, o livro A Vontade de Saber. Seus questionamentos são em torno do rancor que a sociedade sente por sua própria repressão sexual, por sua hipocrisia, por necessidade do indizível (indizível, porque o sexo não era passível de comentários). E desse questionamento fundamental, Foucault propõe que a repressão é um mecanismo usado pela própria sociedade para que haja a incitação de falar; transgressão.Isso não significa que Foucault nega a existência de uma forte repressão sexual, o que ele sugere, é que este não é o fator fundamental a partir do qual se possa escrever uma história da sexualidade a partir da Idade Moderna.
O discurso sexual que até o século XVII foi delimitado por Foucault às práticas de confissão mais voltadas à descrição do ao quê foi feito, como que numa tipificação das faltas e das penitências; depois houve uma mudança nessa “economia discursiva”, que se deslocou de uma tipificação das penitências para a freqüência da confissão, a multiplicação dos espaços de confissão, e uma atenção maior às circunstâncias pelas qual a falta era cometida. Se anteriormente a atenção se dirigia à falta, agora o que importa são as circunstâncias interiores, as determinações da falta, e assim por diante.Nesse sentido, o confessionário propicia um novo prazer: o prazer de contar e o prazer de ouvir; dessa forma, a confissão estabelece uma relação de poder onde aquele que confessa, produz um discurso sobre si, enquanto aquele que ouve interpreta o discurso, redime, condena, domina.
O discurso sexual toma maiores proporções principalmente a partir do século XIX, momento que o sexo passa a ser tratado pelo cientificismo comprometido com o evolucionismo e com os racismos oficiais; o discurso sexual então atinge o campo médico, onde as irregularidades sexuais eram atribuídas à doença mental, ao campo jurídico (onde as perversões menores eram condenadas), a política, etc. Todos pareciam se preocupar com a questão sexual ainda sob perspectiva moralista, mas já com a necessidade de superar esse moralismo, pois já começa a existir a consciência de que o sexo não deve ser tolerado; mas sim inserido em sistemas de utilidade. Portanto, o sexo é regulado de forma que fortalece e aumenta a potencia do Estado.
O discurso sexual não está mais restrito às Igrejas; agora ele além de um problema demográfico é também objeto de pesquisa de diversas áreas, como a medicina psiquiátrica que trata de um discurso sobre as perversões sexuais, da pedagogia que elabora um discurso sobre a sexualidade das crianças, o papel da família, que ainda é de certa forma reprimir essa atividade sexual entre outras, funcionam como um mecanismo de via-dupla: prazer e poder: eles não se anulam e, sim, se entrelaçam, através de mecanismos que excitam e incitam.
Por um lado, há o prazer de exercer o poder: exerce o poder quem reprime: fiscalizando, investigando, questionando; e há o prazer em escapar a esse poder. Então, poder e prazer se reforçam. E o prazer de contar e de ouvir que antes era de usufruto apenas da Igreja toma novas formas, materializa-se em consultórios médicos, em consultas a psicólogos, como uma relação de troca entre o dever dizer tudo e o poder perguntar tudo. Com as pesquisas médicas identifica-se o sexo como superfície de repercussão para outras doenças (outras, porque o sexo ainda possui uma conotação negativa, o que me permite tratá-lo em tom de doença) doença que pode ser curada se dita na hora e para a pessoa certa.
Dessa forma, Foucault apresenta sua hipótese sobre a sexualidade humana; segundo ele, a sexualidade não pode ser tomada como algo da natureza suscetível de repressão do poder; mas sim como produto de encadeamento da estimulação dos corpos, da intensificação dos prazeres, da incitação do discurso e da formulação do conhecimento. Assim, a sexualidade é socialmente construída, da mesma forma que a hipótese repressiva.Portanto, é inegável, em Foucault que a sexualidade se relaciona com o poder, pois entre estes temas existe um tipo de jogo, ou seja: uma espécie de modificação, de posições e de funções. Foucault coloca o gênero e a sexualidade no âmbito da cultura e da história que só podem ser compreendidos implicados com o poder.
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Bibliografia
FOUCAULT, M. A vontade de saber. Rio de Janeiro: Graal, 1993.
HOBSBAWM, E. Revolucionários: ensaios contemporâneos. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982.

[1] Cf. HOBSBAWM, E. Revolucionários: ensaios contemporâneos. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982.
[2] Cf. Id., p. 216.
[3] Id. Ibid., p. 217.
[4] Id. Ibid., p. 216.
[5] Id. Ibid., p. 219.

Texto escrito em parceria com Carolina Desoti.

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