David Hume: resenha da seção IV, primeira parte, da Investigação sobre o entendimento humano

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David Hume: resenha da seção IV, primeira parte, da Investigação sobre o entendimento humano
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INDICAÇÃO BIBLIOGRÁFICA

HUME, David. Investigação sobre o entendimento humano. In: Berkeley e Hume. São Paulo: Abril Cultural, 1973. (Os Pensadores) pp. 128-140.
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1 INTRODUÇÃO

Segundo o prefácio à tradução de Uma investigação sobre os princípios da moral de David Hume, o professor José Oscar de Almeida Marques salienta duas contribuições deixadas por esse filósofo: influenciado pela tradição empirista, desenvolveu uma crítica severa ao princípio de indução, que, como queriam Bacon, Locke, Berkeley e outros, exercia a função instrumental de viabilizar a ciência, por meio dos argumentos de inferências; esse ataque de Hume à base da racionalidade científica foi o incentivo para no final do século XVIII Kant elaborar a Crítica da razão pura, seguramente uma das obras mais influentes da história da filosofia moderna quiçá um marco divisor na filosofia ocidental:

David Hume (1711-1776) conta-se entre os espíritos mais luminosos de seu século e ocupa um lugar proeminente entre os autores de língua inglesa, não apenas por sua obra filosófica, mas também como ensaísta e historiador. Continuador da tradição empirista inaugurada por Bacon e desenvolvida por Locke e Berkeley, levou-a a sua mais extrema conclusão, culminando em um sistema que tem sido muitas vezes acusado de ser excessivamente cético e de privar a ciência e a moral de qualquer justificação racional. Sua contribuição de maior impacto para a filosofia foi à crítica ao princípio de indução, que desde Bacon era tomado como o instrumento por excelência para o estabelecimento de inferências científicas. Ao argumentar que nossa experiência acerca de fatos passados não pode racionalmente justificar previsões sobre acontecimentos futuros, Hume colocou em xeque toda uma forma de conceber a natureza de nosso conhecimento factual acerca do mundo, e, em particular, abalou as pretensões à universalidade características das leis científicas. O fato de que as devastadoras conclusões de Hume tivessem permanecido tanto tempo sem receber uma resposta satisfatória constituiu, nas palavras de Kant, "o escândalo da filosofia". Ao lado disto, é bastante conhecida a afirmação de Kant de que foi a leitura de Hume que o despertou de seu "sono dogmático", fornecendo-lhe o incentivo para escrever a Crítica da razão pura. (HUME, 1995)

O presente texto consiste em uma resenha crítica da seção IV, parte I da obra Investigação sobre o entendimento humano, escrita pelo filósofo David Hume no ano de 1748. Nessa obra, como o próprio título sugere, Hume investiga como e de que forma se processa o entendimento humano. O objetivo deste trabalho é mostrar como o filósofo critica o princípio de indução no processo de construção do entendimento humano. Para tanto, apresentaremos um panorama conceitual das seções anteriores de tal modo a esclarecer temas que consideramos necessários para obter êxito no que intentamos. Por fim, procederemos a uma apreciação crítica da seção IV.


2 SEÇÕES I A III
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I – Das Diferentes Espécies de Filosofia
II – Da Origem das Idéias
III – Da Associação de Idéias
Pode-se considerar, lato senso, que a tarefa da filosofia para Hume nessa obra é constituir uma psicologia empírica. Na primeira seção da obra, o filósofo pensa sobre as diferentes espécies de filosofia. Considera duas categorias: a filosofia abstrusa e a filosofia comum. A primeira é baseada estritamente nas disposições da mente e por isso não pode ser exercida na ação pragmática (no sentido atual da palavra), a filosofia comum, ou fácil, para ser fiel ao autor, é aquela que inversa à outra é baseada nas condutas e nos comportamentos humanos. É relevante analisar como Hume se comporta em relação à tradição da filosofia ocidental: o debate entre filosofia (abstrusa) e senso comum (filosofia fácil) é tema central da filosofia grega antiga. A doxa para Platão era o conhecimento comum e limitado, e somente a filosofia através da dialética levaria o homem à episteme. A partir disso, e depois com Aristóteles por meio da possibilidade de conhecer as causas primeiras da phísis pelo intelecto, as bases do edifício da metafísica ocidental foram erguidas. Na cronologia da tradição filosófica recente à Hume, Descartes era o representante de maior destaque no pensamento filosófico-metafísico. O argumento do cogito é baseado exclusivamente na razão; característica comum da concepção de filosofia abstrusa humeana: baseada estritamente nas disposições da mente. Portanto, o suposto intento de Hume é desconstruir a metafísica antiga e, por conseguinte a metafísica racionalista. Assim, levantamos a hipótese de uma recuperação da filosofia antiga pós-platônica, afinal, como exposto, há na neste trecho da obra um elogio à filosofia fácil ou ao senso comum (referência ao Epicurismo) e, pretendemos mostrar adiante, que há uma suspensão de juízo em relação ao conhecimento das causas últimas dos eventos comuns (referência aos acadêmicos).
Na seção seguinte Hume formula seu parecer em relação à problemática da origem das idéias. A via da empiria é a geradora de conhecimento no entendimento. O entendimento é a instância interior à razão, capaz de realizar os juízos ou operações de raciocínios e resulta à utilidade prática. A evidência para Hume é a vivacidade da experiência; a afecção que os sentidos sofrem da experiência empírica. Quem acredita em enganos gerados pela experiência sensível não exerce suas faculdades mentais de maneira correta. Nesse ponto da analise humeana, o cogito cartesiano é entendido como a instância que a razão tem menos evidência e distinção, pois não há experiência da qual ele derive. Certamente Hume responderia a Descartes que o critério para diferenciar a vigília do sono é a vivacidade das percepções sensíveis e, ainda, que quem não reconhece esta vivacidade está à beira da loucura. Dois conceitos têm destaque na elaboração da solução humeana ao problema da geração de idéias: percepção da mente e impressão. Percepção da mente é a faculdade que possibilita a razão intuir noções daquilo que é externo a ela, ou seja, permite apreender imagens da experiência sensível. Essas imagem ou percepções da mente são divididas em duas espécies que se diferenciam em graus de vivacidade da experiência sensível. As menos vivazes são as idéias ou os pensamentos e as mais vivazes são as impressões. Podemos, a fim didático, compreender as impressões como idéias adequadas, pois são fiéis às experiências que as geraram e os pensamentos ou idéias menos vivazes como idéias inadequadas, pois se distanciam em graus de vivacidades de suas experiências geradoras. É característica da impressão a afecção sofrida pelos sentidos diante de algum objeto material; e do pensamento a imaginação, por meio da associação de idéias de lembranças das percepções fracas.
Na seção terceira é possível compreender que há princípios de conexão entre os pensamentos e as idéias, afinal as impressões produzidas pela via empírica são processadas pelo entendimento e resultam em raciocínios. A razão, então, é o próprio entendimento em ação. Hume entende por entendimento a capacidade de encadear as idéias, dando-as uma regularidade prática e utilitária como meio para alcançar a felicidade ou a satisfação de algum sentimento ou de alguma paixão. O fato é que as idéias se encontram de algum modo encadeadas no entendimento. Esse encadeamento é possível pela conexão ou associação de idéias e compreende três princípios: semelhança, contigüidade e causa e efeito. A semelhança possibilita comparações entre idéias e pensamentos por ocasionar proximidade entre dois elementos; a contigüidade autoriza compreender que há uma relação de extensão entre dois objetos, os quais se conectam por meio desta relação expressa pela ordem do tempo e do espaço e, finalmente o princípio de causa e efeito é a conexão entre idéias distintas que visa apontar os poderes ocultos de dados eventos (não é a conexão de coisas, mas de idéias).

3 SEÇÃO IV
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Dúvidas Céticas sobre as Operações do Entendimento - Parte I
Os objetos da razão humana podem ser divididos em duas espécies: relações de idéias e questões de fato. A primeira corresponde às matemáticas e seja por meio de intuição ou demonstração é certa. “Que o quadrado da hipotenusa é igual à soma dos quadrados dos dois lados é uma proposição que expressa uma relação entre suas figuras. Que três vezes cinco é igual à metade de trinta expressa uma relação entre esses números” (p. 137). A segunda, as questões de fato, não são verificadas da mesma forma que a anterior, pois “o contrário de toda afirmação de fato é sempre possível” (p. 137). Que não haverá amanhã, não é uma proposição menos inteligível do que a sua positiva: haverá amanhã. “Seria vão, por isso, tentar demonstrar a sua falsidade” (p. 137). O problema é a verificabilidade dos raciocínios a priori. Antecipar acontecimentos entre eventos é impossível, posto que a empiria é a geradora de conhecimento no entendimento. A verificação dos eventos e as suas supostas causas geradoras somente são possíveis a posteriori; apenas dados da experiência são seguros.
“Todos os raciocínios sobre questões de fato parecem fundar-se na relação da causa e efeito” (p. 138). É essa relação que faz o entendimento ultrapassar a evidência da memória e dos sentidos. Portanto deve-se indagar como a razão chega ao conhecimento da relação de causa e efeito. Hume salienta ao leitor que esse conhecimento não é alcançado a priori, mas tem sua origem na experiência. O exemplo é o seguinte: quando se apresenta um objeto desconhecido a um homem que tem uma boa capacidade de raciocínio, ele certamente não poderá dizer qual a causa geradora do objeto nem os efeitos que este produz. “Nenhum objeto jamais revela, pelas qualidades que se manifestam aos sentidos, nem as causas que o produziram, nem os efeitos que dele decorrerão; e tampouco a nossa razão, sem o socorro da experiência, é capaz de inferir o que quer que seja em questões de fato e de existência real” (p. 138).
Há um grande esforço de Hume nos parágrafos 23 e 24 (desta edição) em atacar aqueles que defendem que as relações de causas e efeitos podem ser descobertas pela razão e consequentemente se valem de raciocínios a priori para explicar estas relações. “Acreditamos que, se fôssemos trazidos de repente a este mundo, poderíamos ter inferido desde o primeiro instante que uma bola de bilhar comunicaria o seu movimento a outra por impulso [...]” (p. 139). Isso acontece, a utilização dos raciocínios a priori, porque há a influência do costume ou hábito, que em alguns casos é tão forte que, não apenas cobre a ignorância humana, mas esconde a si próprio. Voltemos ao exemplo do objeto desconhecido apresentado ao homem de boa capacidade de raciocínio; se pedirmos para ele se pronunciar sobre a causa ou sobre o efeito do tal objeto, saída será ele inventar ou imaginar algum acontecimento. “[...] é evidente que essa invenção deverá ser inteiramente arbitrária” (p. 139). Da mesma forma se procede a experiência do evento entre dois objetos. A razão não pode encontrar o efeito na suposta causa, mesmo depois do mais minucioso exame, afinal o efeito difere totalmente da suposta causa. Desse modo, sobretudo, a razão não pode se sustentar em operações do raciocínio a priori.
A imaginação de uma suposta causa de um dado efeito é arbitrária; por que entre as várias possibilidades de um raciocínio a priori escolhemos uma como a suposta causa (arbitrária)? Porque a regularidade entre eventos gera o hábito da associação da idéias no entendimento humano. Assim, toda antecipação de acontecimentos entre eventos é arbitrária e, mesmo depois de conjugada a causa a seu efeito sugerido, não será menos arbitrária. Afinal, “existem sempre muitos outros efeitos que devem parecer, à razão, tão coerentes e naturais quanto esse” (p. 139) escolhido. Não há, portanto, uma conexão necessária na relação causa e efeito.
Por isso, os mais sensatos filósofos não pretenderam apontar a causa última de qualquer evento natural. Os que fazem isso reduzem a razão humana a princípios causadores e reportam os numerosos efeitos particulares a poucas causas gerais, sem uma explicação delas que convença plenamente. “A mais perfeita filosofia natural outra coisa não faz senão entreter durante algum tempo a nossa ignorância; como, talvez, a mais perfeita filosofia moral ou metafísica serve apenas para descobrir mais vastas regiões de ignorância” (p. 139).
Nem as matemáticas podem conduzir a um conhecimento das causas primeiras com toda a sua exatidão de raciocínio. Os diversos ramos da matemática supõem que existam certas leis que estabelecem as operações naturais, que determinam a influência de casos particulares; entretanto a descoberta destas leis dependeram da experiência.
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Referência
HUME, David. Uma investigação sobre os princípios da moral. Campinas: Editora da UNICAMP, 1995 (Coleção Repertórios).

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