História e Método em Thomas Hobbes
Resumo
Esse texto tem como objetivo demonstrar os movimentos históricos que afetaram a filosofia de Thomas Hobbes, bem como demonstrar, de modo geral, o método utilizado pelo filósofo para pensar a sua ciência política.
Palavras-chave: História; Método; Thomas Hobbes.
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1 INTRODUÇÃO
Thomas Hobbes inicia a obra De Cive com uma explicação sobre as faculdades da natureza humana, reduzindo-as a quatro espécies: “força corporal, experiência, razão e paixão”[1]. Convém procurarmos problematizar qual a importância desta constatação. Basicamente há duas hipóteses para justificá-la.
Segundo Victor Goldschimidt, a interpretação da obra filosófica consiste em reaprender, conforme a intenção do autor, a ordem racional das teses “[...] e em jamais separar as teses dos movimentos que as produziram”[2]. Também, é possível que se interprete uma obra observando fatos históricos que produzem reflexos na elaboração do texto do filósofo. Analisemos, pois, quais os movimentos históricos que possivelmente afetaram a produção filosófica de Thomas Hobbes, logo em seguida os movimentos lógicos de suas obras.
Thomas Hobbes inicia a obra De Cive com uma explicação sobre as faculdades da natureza humana, reduzindo-as a quatro espécies: “força corporal, experiência, razão e paixão”[1]. Convém procurarmos problematizar qual a importância desta constatação. Basicamente há duas hipóteses para justificá-la.
Segundo Victor Goldschimidt, a interpretação da obra filosófica consiste em reaprender, conforme a intenção do autor, a ordem racional das teses “[...] e em jamais separar as teses dos movimentos que as produziram”[2]. Também, é possível que se interprete uma obra observando fatos históricos que produzem reflexos na elaboração do texto do filósofo. Analisemos, pois, quais os movimentos históricos que possivelmente afetaram a produção filosófica de Thomas Hobbes, logo em seguida os movimentos lógicos de suas obras.
2 DESENVOLVIMENTO
A primeira edição do De Cive data de 1642, ano do início da Guerra Civil Inglesa, situação que mais tarde culminou na execução do rei Carlos I e na tomada do poder político pelo Conselho de Estado, ambos os fatos no ano de 1649. Embora a guerra tenha “explodido” no ano de 1642, os motivos pelos quais ela veio a existir foram delineados, precisamente, desde 1603, quando a dinastia Stuart, por meio de Jaime I, sobe ao poder político inglês. Com o rei Jaime I, têm início os conflitos gerados pela falta de concessões entre o rei e o Parlamento. Com Carlos I, que sucedeu Jaime I, a mesma situação chega “efetivamente a um impasse. O rei se recusa a qualquer concessão”[3].
Para Hobbes, a multiplicação desses eventos políticos na Inglaterra dos Stuart culminaria seguramente na guerra. O filósofo acertou. A exatidão do inglês não foi simples acidente de seu raciocínio. Foi, contudo, resultante de uma análise calcada nos princípios pelos quais ele pensa a política. Vejamos.
Esses princípios são a matemática euclidiana e a física galileana. No que se refere aos princípios da primeira na filosofia hobbesiana, ela pode ser encontrada no estilo retórico do autor. Hobbes escreve tal como os princípios encontrados nos Elementos de Euclides: a partir da definição de uma proposição se gera uma nova proposição que necessita de uma nova conceituação e proporciona a geração de outros conceitos e assim sucessivamente. De tal modo se concebe o todo de uma obra, que a ordem lógica e conceitual das demonstrações feitas seja irrefutável. No que se refere à física galileana, Hobbes utiliza o método mecanicista, fundado no princípio de causa e efeito, para demonstração dos resultados entre os tipos de relações dos os homens. Relações que resultarão em guerra ou em paz.
2.1 Tempo Histórico
A partir disso, a primeira hipótese para legitimar a importância da constatação preliminar que Hobbes traz ao leitor no início do De Cive é a necessidade de definir a natureza humana e com essa definição demonstrar quais resultados podem ser obtidos; a lembrar, guerra e paz. O cálculo sobre a guerra e a paz em Hobbes suscita a compreensão de outras noções básicas sobre a filosofia do autor: as noções de sabedoria e de filosofia. Encontramos na epístola dedicatória do De Cive uma posição do filósofo sobre essas noções:
A sabedoria, a bem dizer, nada mais é do que o perfeito conhecimento da verdade em todos os assuntos que seja. Ora, como tal conhecimento deriva dos registros e relações das coisas, e se dá graças ao uso de denominações certas e definidas, não pode, obviamente, ser fruto de uma agudeza imprevista, mas somente de uma razão bem equilibrada que, para resumir numa só palavra, chamamos filosofia (Hobbes, 2002, p 4-5).
Ora, o conhecimento de um pensamento logicamente correto, bem encadeado, com estatuto de verdade, deve se dar em analogia à demonstração geométrica de Euclides. Hobbes, ainda na epístola dedicatória, argumenta que “se os filósofos morais tivessem cumprido seu dever com igual felicidade”[4], teriam praticado o método utilizado pelos antigos geômetras. O assunto que interessa a Hobbes é compreender as ações humanas. Sabedoria é denominar e definir as ações. A razão equilibrada é a capaz de conhecer os resultados dessas relações: é a filosofia. “[...] Na sua filosofia política, existe uma tênue concordância da filosofia com a estrutura formal da ciência geométrica”[5].
O objetivo de Hobbes é muito claro: demonstrar uma ciência política capaz de comprovar os resultantes das verdadeiras causas da guerra e da paz. Nessa demonstração, o objeto de análise são as ações humanas.
Ainda sobre a conceituação da natureza humana, é possível constatar que o tempo histórico de Hobbes afetou demasiadamente sua filosofia. O filósofo inglês com aspirações a cientista viu na iminência da guerra civil inglesa, depois na própria guerra, um enorme laboratório para a análise das relações humanas. Portanto, concluímos disso, que, no olhar do filósofo, é o homem o elemento primordial desse laboratório, o objeto principal a ser conhecido; por isso a importância, no início do De Cive, assim como no Leviatã, de pensar sobre a natureza humana.
2.1 Tempo Lógico
A segunda hipótese de análise do texto de Hobbes se orienta pela compreensão de sua lógica e do método adotado por ele para escrever sua filosofia política. O filósofo descreve qual o projeto de seu sistema filosófico no prefácio do De Cive:
Estava estudando filosofia por puro interesse intelectual, e havia reunido o que são seus primeiros elementos em todas as espécies e, depois de concentrá-los em três partes conforme o seu grau, pensava escrevê-los da seguinte forma: de modo que na primeira trataria do corpo, e de suas propriedades gerais; na segunda, do homem e de suas faculdades e afecções especiais; na terceira, do governo civil e dos deveres do súditos (Hobbes, 2002, p. 17).
Com essa perspectiva Hobbes intenta a criação da ciência política. Mais exatamente, o seu sistema filosófico seria: o estudo do movimento dos corpos (física), o estudo do homem (o que podemos chamar de sua antropologia) e o estudo da política (as relações entre cidadãos e soberano). Em poucas palavras: o corpo, o homem, o cidadão. Assim, justifica Hobbes:
[...] nesse ínterim, que meu país, alguns anos antes que as guerras civis se desencadeassem, já fervia com questões acerca dos direitos de dominação, e da obediência que os súditos devem, questões que são as verdadeiras precursoras de uma guerra que se aproxima [...] Assim sucede que aquilo que era último na ordem veio a lume primeiro no tempo, e isso porque vi que esta parte, fundada em seus próprios princípios suficientes conhecidos pela experiência, não precisaria das partes anteriores (Hobbes, 2002, p. 18).
A sinceridade de Hobbes mostra a consistência de sua filosofia política que, mesmo com a falta da análise das primeiras partes de seu sistema filosófico inicial, ainda se sustenta em alicerces estritamente calcados em princípios suficientes o bastante para garantir a consistência de uma ciência política. De qualquer forma, de maneira muito sintetizada, porém suficiente, o filósofo ainda segue o movimento inicial de seu sistema. Trazemos essa tese com base no conteúdo de alguns livros publicados antes do De cive de Hobbes.
No ano de 1640, circulava no ambiente de convívio íntimo do filósofo alguns manuscritos de seus Os Elementos da Lei Natural e Política. Esta obra tem o objetivo de analisar na primeira parte a natureza humana e na segunda parte o corpo político. Objetivo muito parecido com o De Cive. Entretanto, o modo de demonstração dos elementos analisados nos manuscritos de 1640 é muito mais detalhado que no De Cive. Assim como no Leviatã o filósofo trará alguns dos mesmos temas analisados naquele último texto, mas de maneira menos específica.
A cada nova obra o filósofo se preocupa em retomar os principais conceitos demonstrados na obra anterior. É sensato perguntarmos, então, qual a primeira obra de Hobbes, a partir de qual constatação o filósofo começou a escrever sua filosofia? A resposta que nos parece convincente remete à data de 1631, quando é publicado o Pequeno Tratado sobre os Primeiros Princípios. Nela, são abordados de modo panorâmico os princípios do corpo e do movimento, da física que conquistou o jovem inglês. Thomas Hobbes começou escrever sua filosofia a partir da constatação da physis.
Então, pelo fato de Hobbes iniciar seu De Cive com a retomada da análise sobre a natureza humana, demonstra-se a coerência lógica metodológica dos movimentos sucessivos entre os conceitos criados por ele.
Contudo, para o leitor avisado, compreender Thomas Hobbes, demanda conhecer o tempo histórico do filósofo e, além disso, conhecer o projeto lógico da filosofia hobbesiana.
Referências
[1] HOBBES, T. Do Cidadão. Tradução, apresentação e notas de Renato Janine Ribeiro. 3ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 2002, cap. I, § 1.
[2] GOLDSCHIMIT, V. A filosofia de Platão. São Paulo: Difel, 1963. p. 140.
[3] HOBBES, T. Do Cidadão. Tradução, apresentação e notas de Renato Janine Ribeiro. 3ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 2002, apresentação, p. 24.
[4] Idem, Ibidem, epístola dedicatória, p. 24.
[5] Idem, Ibidem, nota 4, p. 74.
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