1 O que é Fenomenologia para Hegel?
Na obra Fenomenologia do Espírito, de 1807, o tema em questão para Hegel é o estatuto do conhecimento (da Ciência). A obra é a primeira parte, a introdução, a um novo sistema de Filosofia proposto pelo filósofo. Nesta obra introdutória à Filosofia o problema da constituição do saber torna-se uma metacrítica à consciência natural, o conhecimento. Os conceitos de maior relevância para se compreender a noção de Fenomenologia são os de Ciência, de Figuras, de Consciência e de Absoluto.
Ciência em Hegel é a “Filosofia desenvolvida como sistema total do saber”[1]. O filósofo atenta para o estatuto aparente da Ciência: “[ela] pelo fato de se fazer presente, é igualmente uma aparência”[2]. Ora, esta aparência ainda não é a Ciência que Hegel chama de Absoluto (Das Absolute). Este, “é a realidade total no movimento da sua automanifestação como Espírito”[3]. A Fenomenologia deste modo é o caminho da consciência para a Ciência. O Absoluto se mostra no processo dialético do autopensar da consciência natural. Quando a consciência natural torna-se autoconsciência, eleva-se ao Espírito.
A exposição do saber como fenômeno, posto que a Ciência é aparente, é o caminho da consciência natural ao Espírito. A exposição do saber à caminho do Espírito é a metacrítica da consciência natural e conteúdo de toda a Fenomenologia do Espírito. O método que Hegel emprega para expor o processo dialético do autopensar da consciência natural é o percurso das figuras (gestalt). A figura é a unidade fundamental da estrutura da Fenomenologia. A articulação das figuras, destaca Henrique Lima Vaz (1974), “se faz segundo uma dialética de natureza histórica mas que não deve ser confundida como uma simples sucessão cronológica”[4]. “A sucessão das suas figuras [do saber] que a consciência percorre nesse caminho [ceticismo amadurecido] é, pelo contrário, a história pormenorizada da formação[5] da consciência mesma para a Ciência”[6].
Um exemplo de como Hegel utiliza a noção de figura é a retomada ao mundo grego e ao mundo romano, a fim de caracterizar, como síntese destes, o mundo moderno. O mundo grego é o mundo da liberdade Bela, e, além disto, é a expressão do espiritual através do sensível; enquanto o mundo romano é o mundo da Lei: é a expressão do Espírito ao nível da racionalidade. A síntese entre estas duas figuras é o mundo moderno, onde o que caracteriza o Absoluto é a liberdade e a liberdade absoluta é a expressão do sagrado no humano. Neste caso, a religião é a expressão no mundo moderno do Espírito Absoluto.
O caminho para Hegel, que é o método utilizado por ele para pensar na sucessão das figuras na história, é o do “ceticismo amadurecido”[7]. É o caminho da dúvida que conduz ao desespero (da Ciência) de si. Pois bem: neste caso, aponta François Châtelet (1974), “[...] a verdade não é um fato, mas um resultado; seu enunciado só vale na medida em que produz os momentos de seu desenvolvimento; o ser-verdadeiro só tem sentido se exibe o processo pelo qual se tornou verdadeiro”[8]. Por isto, Lima Vaz lembra que a dialética das figuras não deve ser confundida como mera sucessão cronológica, pois, como apontado por Châtelet, o ser-verdadeiro é o que exibe o processo pelo qual se tornou o que é. Ora, o Absoluto, nesse sentido, torna-se o que é por meio da autoconsciência de suas figuras na marcha da humanidade, da história.
2 Por que ele, Hegel, chama-a, a obra, de Fenomenologia do Espírito?
Disso tudo, Fenomenologia do Espírito é fundamentalmente uma obra sobre teoria do conhecimento, mais especificamente representa uma teoria geral do saber. Porém, é uma superação da teoria do conhecimento anterior a ela, que entendia haver uma dicotomia entre objeto e sujeito do saber (dicotomia kantiana, por exemplo); é uma superação desta, posto que o processo da constituição da consciência torna-se autoconsciência e, nisto, descobre-se como Espírito: como saber Absoluto. Hegel chama a obra assim porque é na exposição das figuras da Ciência como fenômeno que reside à possibilidade de examinar a realidade do conhecimento e, por meio disto, é admissível empreender um Espírito autoconsciente de seu Saber Absoluto – a Filosofia desenvolvida como sistema total do saber.
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Bibliografia
CHÂTELET. F. História da filosofia: a filosofia e a história. Rio de Janeiro: Zahar, 1974.
HEGEL, G. W. F. Hegel. São Paulo: Abril Cultural, 1974. (Os Pensadores).
Bibliografia
CHÂTELET. F. História da filosofia: a filosofia e a história. Rio de Janeiro: Zahar, 1974.
HEGEL, G. W. F. Hegel. São Paulo: Abril Cultural, 1974. (Os Pensadores).
p
Notas
[1] Lima Vaz, H. C., nota 5 em Introdução da Fenomenologia. HEGEL, G. W. F. Hegel. São Paulo: Abril Cultural, 1974, p. 49 (Os Pensadores).
[2] Id. Ibid.
[3] Lima Vaz, H. C., nota 5, Id., p. 47.
[4] Lima Vaz, H. C., nota 12, Id., p. 51.
[5] Formação ou Cultura (Bildung). “Hegel estende aqui a idéia de ‘formação’ a todo o itinerário da consciência descrito na Fenomenologia”. (Lima Vaz, nota 11, p. 50).
[6] Id. nota 02, p. 50.
[7] Id. Idid.
[8] CHÂTELET. F. História da filosofia: a filosofia e a história. Rio de Janeiro: Zahar, 1974, p. 178.
[1] Lima Vaz, H. C., nota 5 em Introdução da Fenomenologia. HEGEL, G. W. F. Hegel. São Paulo: Abril Cultural, 1974, p. 49 (Os Pensadores).
[2] Id. Ibid.
[3] Lima Vaz, H. C., nota 5, Id., p. 47.
[4] Lima Vaz, H. C., nota 12, Id., p. 51.
[5] Formação ou Cultura (Bildung). “Hegel estende aqui a idéia de ‘formação’ a todo o itinerário da consciência descrito na Fenomenologia”. (Lima Vaz, nota 11, p. 50).
[6] Id. nota 02, p. 50.
[7] Id. Idid.
[8] CHÂTELET. F. História da filosofia: a filosofia e a história. Rio de Janeiro: Zahar, 1974, p. 178.